Boa imagem do agro entre mulheres abre espaço para promover exportações


A imagem positiva do agronegócio entre as brasileiras pode servir de ponto de partida para uma estratégia de valorização dos produtos nacionais no exterior. Uma pesquisa da consultoria portuguesa OnStrategy, antecipada à CNN, identifica o setor como um dos motores de construção da marca Brasil na visão feminina. O desafio comercial é entender até que ponto essa percepção encontra correspondência entre consumidores e compradores internacionais.

No levantamento, a avaliação do agro pelas mulheres supera em 0,12 ponto a atribuída pelo público interno geral, a maior diferença positiva entre os setores apresentados. A consultoria classifica o agronegócio e o turismo como setores de reputação robusta, que contribuem para fortalecer a imagem do país.

Outro resultado ajuda a contextualizar essa oportunidade. Entre as brasileiras, o atributo “Exposição e Relevância Internacional” da marca Brasil recebe nota 8,9, em uma escala de zero a dez. A qualidade de produtos e serviços alcança 7,7.

As duas notas se referem ao país como um todo, e não exclusivamente ao agronegócio. Também expressam a visão das brasileiras sobre o Brasil, sem medir diretamente como estrangeiros enxergam a produção nacional. A combinação dos indicadores permite discutir caminhos de promoção comercial, mas não demonstra que a boa avaliação já tenha gerado vendas adicionais.

Da reputação à oportunidade comercial

A discussão se insere em uma agenda de diversificação das exportações. Em agosto, o Brasil exportou US$ 33,2 bilhões em mercadorias, considerando todos os setores, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

A ApexBrasil, por sua vez, apresenta um plano de diversificação com R$ 210 milhões e previsão de apoiar 5,3 mil empresas. A iniciativa atende negócios afetados pelas medidas tarifárias dos Estados Unidos e reúne instrumentos como participação em feiras, encontros com compradores e consultoria para acessar outros destinos.

Nesse contexto, a leitura possível dos resultados da OnStrategy é que o agro dispõe de uma base favorável de reputação interna para orientar sua comunicação internacional. Isso pode inspirar ações que associem a origem brasileira à qualidade dos produtos, ao conhecimento de quem produz e às características de cada cadeia.

Para o professor e consultor José Luiz Tejon, ouvido pela CNN, a pesquisa indica uma oportunidade de ampliar a presença feminina nessa comunicação. Ele defende maior participação das brasileiras na apresentação ao mundo do que o país produz, de como produz e de quem está por trás dessa atividade.

A proposta dialoga com o conceito de nation branding: a construção e a gestão da imagem de um país. No caso do agro, a questão é como transformar atributos associados ao Brasil em razões para que um comprador conheça, experimente e considere seus produtos.

De acordo com a empresária da área de papel e celulose e também diretora da Abag, Nina Ploger, o mundo vive um movimento de “desglobalização” – fase em que o Brasil precisa acelerar sua narrativa comercial para agregar valor a produtos além das commodities. Segundo a executiva, o país já mostrou resiliência para enfrentar conflitos e guerras sem deixar de abastecer diferentes regiões globais.

“O mundo árabe é um dos exemplos entre os que já reconheceram o Brasil como o fornecedor estratégico e querem, além de aumentar parceria, conhecer os detalhes da agricultura que se produz no país”, afirma.

Mercado aberto é uma etapa; conquistar compradores é outra

As aberturas comerciais recentes oferecem exemplos concretos de onde essa estratégia poderia ser aplicada. Em 14 de setembro, os ministérios da Agricultura e das Relações Exteriores anunciaram a autorização para exportar maçã, uva, pera e laranja frescas a Cuba. O México também aceitou os requisitos para importar proteínas bovinas não hidrolisadas, como o colágeno brasileiro.

Essas autorizações representam oportunidades de acesso. Até o mês de setembro, eram mais de 600 mercados.

Uma estratégia internacional também pode explorar a relação entre a imagem do agro e a agenda ambiental, social e de governança, conhecida como ESG. Nesse caso, a comunicação precisaria estar associada a evidências verificáveis, como informações sobre origem, rastreabilidade, condições de produção e certificações pertinentes a cada produto.

Para Mariana Aragão, da comissão científica da WFO e chefe da Embrapa Gado de Corte, ainda é preciso estimular uma diplomacia científica brasileira para que o mundo também conheça os estudos “tropicais”. “A comunicação será fundamental, pois ainda em fóruns internacionais predominam visões eurocentristas e americanas sobre o agro, regiões de clima temperado, que têm outro tipo de sistema produtivo e realidade se comparada ao Brasil”, destaca.

O recorte apresentado pela OnStrategy não traz uma nota específica de sustentabilidade do agronegócio nem demonstra que esse fator explique sua vantagem entre as mulheres. Vincular diretamente o resultado a um reconhecimento ambiental do setor extrapolaria os dados disponíveis.

A oportunidade de análise está em investigar quais características sustentam a avaliação positiva e quais delas têm relevância comercial nos destinos que o Brasil pretende alcançar.

O olhar estrangeiro ainda precisa entrar na comparação

O estudo mais amplo reúne 470,6 mil participantes em 27 países, incluindo 192,4 mil no Brasil. As entrevistas ocorreram online entre outubro de 2025 e março de 2026. A apresentação dedicada às mulheres, entretanto, compara o público feminino brasileiro com a avaliação interna geral e não detalha a percepção internacional do agro.

Para saber se a reputação interna encontra correspondência no exterior, seria necessário comparar as avaliações por país, atributo e perfil de entrevistado. A opinião de consumidores, por exemplo, pode ter implicações comerciais diferentes da visão de importadores e distribuidores.

Até aqui, o levantamento identifica uma força de imagem dentro do Brasil. Transformá-la em vantagem exportadora é uma hipótese a ser investigada com dados de mercado e com quem decide comprar os produtos brasileiro, destacam os organizadores da pesquisa.



Fonte: CNN Brasil

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